Blog do Tião Neto
   EM DUBIO PRO LEILÃO

O mundo é cheio de modismo. Tem-se tempo para vestir de um jeito, para se calçar de outro; para se beber isso e aquilo, para se usar esse ou aquele produto como medicamento e até para se comer esta ou aquela iguaria.

Não foi diferente na Zona Rural brasileira, na década de noventa, surgiu um novo modelo de comercio de animais, os grandes leilões. Era circo montado para todo lado, a grande maioria nas entradas das cidades do interior. Coisa muito bem organizada em alguns lugares; verdadeiras festas regadas a muita conversa e bebidas, normalmente fortes para aquecer a mente e soltar o dinheiro dos tímidos e desconfiados produtores rurais. Funcionárias exuberantes, vestidas no estilo vaqueiro americano, completavam os atrativos e as astutas armações do esquema. Ah! Um detalhe; as moças emitiam a cada lance ofertado, um grito estridente e alto, que chamava atenção de todos do recinto. Pena que foi modismo, e como já disse; modismo passa.

Em Itajá; a capital brasileira dos contos e fatos cômicos, não poderia deixar de no leilão dos irmãos APB, acontecer alguns lances muito interessantes. Acho que o mais interessante deles foi o do meu primo-irmão Valdemar. Na época prefeito e grande tomador de Cangibrinas, e diga-se de passagem; quando sóbrio um retraído, mas quando embriagado se soltava em conversas e gestos. Aliás. É justamente sobre os gestos que quero chamar a atenção.

O apregoador do leilão; camarada de fala fácil, expressando umas duzentas palavras por minuto, era um atrativo. Normalmente no inicio das atividades, fazia um comercial danado, vendendo a mercadoria e inflando o ego de alguns dos Fazendeiros presentes. Mas também tinha o anuncio das normas e procedimentos do leilão. Dentre as normas e procedimentos uma era a de que “qualquer gesto será interpretado como lance”. Aqui não prevalecia o dito popular; “Qualquer aparência será mera coincidência”.

Recinto da APB- Leilões, lotado. Tanto de animais, quanto de pessoas. O uísque já havia soltado os braços de muita gente. O burburinho era ensurdecedor.

Dada a partida; após a explicação das normas, entra o primeiro lote. Lógico que conjuntamente continua a bebedeira e a comilança. Lá no meio, esta o nosso personagem, Valdemarzinho, nessa hora é só prosa e gestos.

Com a atenção voltada para as suas conversas e explicações; o nosso personagem não percebendo que tem a mania de gesticular com o dedo indicador em riste; além de já aquecido pela bebida, em dado momento resolveu enfatizar, e ai sim, os dedos se colocaram até para o alto. Acontece que as pisteiras; nome dado às moças que faziam a observação dos lances, não deixaram de notar a rispidez do amigo prefeito. A cada chacoalhada de dedo a moça emitia um grito e o leiloeiro aumentava um pique no valor da mercadoria, que nessa hora se tratava de um cavalo velho. Era lance em cima do próprio lance, o cavalo que deveria valer cem reais saiu por quinhentos.

Com a venda de outro cavalo velho já em andamento. O malogrado comprador só tomou ciência da desgraceira que havia aprontado, quando a encarregada de recolher as confissões de dividas, chegou ao lado do nosso personagem, lhe indicando a boleta para assinatura.  Foi aí que a coisa realmente ficou engraçada. Surpreso e querendo explicar que não havia comprado o cavalo, ele levantou os dois braços com os dois dedos indicadores em riste. Hei! Hei! Hei! Foi aquela gritaria das pisteiras. Quanto mais ele tentava dizer que não tinha dado o lance, mais a mercadoria subia. Novamente era lance em cima de lance. Quando ele entendeu que tinha que parar de fazer gestos, o segundo cavalo também já tinha atingido a cifra de quinhentos reais. Recebidas a três marteladas finais o leiloeiro encerrou a venda do segundo cavalo. Embravecido e com os braços abaixados o amigo apenas maldizia, que não tinha dado lances. Para completar a farra dos cavalos anunciaram, ai em alto e bom som. “Comprando novamente o Sr. Valdemar, proprietário da fazenda Fortaleza, Itajá-Goiás”. Desta feita ele ouviu.

 

 

                                                              Por:  SebasTIÃO de Freitas NETO

                                                                              Eng. Agrônomo

                                                                                  Itajá-Goiás



Escrito por Tião Neto às 05h43
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   BARRIGA D´ÁGUA

 

 

Bem aventurados os mansos!

Bem aventurados os humildes!

Estas palavras do mestre caberiam perfeitamente na vida do Jeromão; um dos primeiros moradores, do que é hoje Itajá. Vindo de Minas Gerais; fazia muito bem jus ao nome de Jeromão. Com seus quase dois metros de altura, branco, de cabelos castanhos claros quase louros, sempre em muito desalinho; um vozeirão e uma risada espalhafatosa completavam o típico sertanejo. Aliado à ingenuidade, um leão no serviço. Somava ainda ao saudoso personagem; um humor digno de ser repassado; aos nossos estressados cidadãos hodiernos. O maior contador de lorotas que já apareceu aqui no Itajá. Quero aqui abrir um parêntese para diferir; o loroteiro do mentiroso. O mentiroso causa danos à população, o loroteiro alegra o ambiente por onde passa. Assim era ele; onde estava, sempre havia um pequeno grupo de pessoas para ouvirem as suas estórias, a maioria causos de acontecimento pessoal.

Mesmo vivendo na pobreza, conseguida à custa de sua inocência para os negócios, ele jamais deixou de ser bem humorado. Um fator que o levou a bancarrota financeira foi o empreendedorismo; mesmo não conhecendo, o rurícola, adquiriu um caminhão, que na época; sem assistência nesses sertões trouxeram muitos problemas para o pretenso empresário. É justamente sobre a vida do Jeromão e seu caminhão, que quero relatar.

Após ter mudado para o povoado de Itajá, com seu automotivo; colocou-se à disposição para fazer fretes inclusive prestar serviços para a prefeitura da cidade nascente.

A pouca habilidade para conduzir o caminhão fez com que o disco da fricção se danificasse. Logicamente o mecânico, recomendou que ele comprasse um disco de fricção novo. Sabendo que o Dr. Celso, primeiro juiz de direito da comarca, viajaria para Goiânia, tratou logo de pedir uma carona.

Conhecedor da peça rara, o juiz concedeu; porém fez a exigência, de que; se ele mentisse, voltaria da Capital direto para a cadeia.   Nem viram a viagem passar; tantos foram os causos que o Jeromão contou ao Juiz. Todos com a afirmativa de serem verdadeiros.

Lá chegando o convidado de honra do Dr. Celso, foi levado até a sua residência no centro da cidade, não era muito pomposa, mas para o sertanejo acostumado com casa de taipa e piso de chão, era coisa de outro mundo.

A viagem de avião foi mais um episódio nessa estória que deixou o nosso personagem com a goela seca.

Ao adentrar a casa, ele fazendo graças sobre sua caipirice, pediu ao doutor que lhe apresentasse um pote, utensílio ao qual estava habituado. Porém o doutor lhe apresentou um copo grande, já colocado debaixo da torneira aberta do filtro. Deixando-o perto do copo d’água já prestes a encher, achando que ele fecharia a torneira, o doutor adentrou a casa.

A solução apresentada não foi das melhores; porém ele não poderia deixar aquela geringonça derramar água no chão. Como havia um outro copo na cantoneira do filtro, Jeromão o pegou e retirando o que estava prestes a entornar meteu-o debaixo; pondo-se a beber o que já estava cheio. Quando ele acabou de beber o primeiro o segundo já estava pronto para ser bebido. Ele não teve duvidas, trocou de copo novamente.

Lá pela sexta copada e para sua felicidade o Doutor irrompeu no local onde o fatigado senhor se encontrava. Com pedido de ajuda e vendo a simplicidade que era fechar a torneira; ele já foi logo fazendo ironia da sua engraçada desgraça.

-Oh! Doutor; se o senhor não chega eu ia arrebentar de tanto beber água. Pia só, já ta dando até para ver as tripas. Sabe cumu é! né? Lá em casa tem é pote né? Nun tem que troce essa zoreinha. Assim falando e tentando se desfazer da situação mudou de assunto dizendo:

- Por fala nisso vamo logo compra o disco da fadiga do caminhão. Fala que levou o Doutor a perguntar.

-Mas não é disco da fricção Sr. Jerônimo?O que ele prontamente respondeu interrogando.

- Uai! Doutor; e Frição e Fadiga num é a mesma coisa?

 

 

 

                                                          Sebastião de Freitas Neto

                                                                   (Tião Neto)

                                                           Engenheiro Agrônomo

                                                                 Itajá-Goiás



Escrito por Tião Neto às 05h40
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   O PAGAMENTO DO HOSPITAL

Ainda me lembro dos anos oitenta; das grandes dificuldades econômicas, que o Brasil enfrentou. Era um deus nos acuda, você deitava rico e amanhecia pobre; vendia cedo um boi, e de tarde não conseguia comprar um bezerro. A inflação; uma palavra técnica em economia, passou a fazer parte até da vida do sertanejo. Um dos fatos mais importantes da inflação galopante foi a indexação dos preços. Para quem não viveu esse tempo, digo que é a substituição da moeda por alguma outra coisa; por exemplo: saca de milho, arroba de boi, litro de gasolina. Também foi bastante usado a tal dolarização, sendo que esta ficou até hoje.

            Em Itajá e região a febre foi comparar as coisas com litros de gasolina. Com o habito de economizar palavras, o goiano, do sudoeste de Goiás, só dizia “a gasolina”. Quando o governo anunciava a alta da gasolina, principalmente o valor percentual, era a referencia para ajustar o preço das coisas.

            Eu como bom conhecedor de Itajá, digo, que aqui era, e ainda é, a capital nacional da venda fiado ou a prazo. Muita das vezes o cidadão com o dinheiro no bolso, pedia pra fazer nota; imaginem isso num período de inflação alta; tanto podia enriquecer o comerciante, como podia quebrá-lo da noite para o dia. Era assim em todo lugar onde se comprava ou vendia alguma coisa; inclusive no hospital da cidade. Até consultas, operações, partos, internações; eram feitas a prazo. Também ali, a correção dos serviços hospitalares, era feita com base no aumento da gasolina.

            O Sr. Sebastião Luiz, popularmente chamado de Bastião Luiz, era um dos pioneiros da região; cidadão muito enérgico, de fala ríspida e seca, pronunciada na garganta com um jeitão bem matreiro. Não suportava uma idiotice ao seu redor; com ele era na base da “pergunta idiota, tolerância zero”. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua e na maioria das vezes era ofensiva. Também não suportava intromissões de outros nos seus assuntos. Como eu gosto de dizer um dos personagens mais interessantes da nossa comunidade. Fico até indignado quando dizem ser um tal “Seu Nonga ou Longa”o mais ranzinza do Brasil. Até acho que pode ser vivo, mas se levassem em consideração os mortos; por aqui os irmãos Lau e Bastião, teriam um lugar reservado nesse trono.

            Com toda essa delicadeza; para não dizer outra coisa; o famoso xará, foi até o hospital da cidade. Na recepção, com sua voz seca, falou para a atendente:

- Moça eu quero fala, com o dotor Lião.

            Sem conhecer a peça rara que era o Bastião; ela inocentemente perguntou:

- O que o senhor quer falar com ele?

            Mal tinha fechado a boca do feitio da pergunta; ele secamente já respondeu:

- Se fosse pra fala coscê, eu já tinha falado; eu quero fala é co dotor Lião.

            A recepcionista, se levantando da cadeira um tanto constrangida com a resposta do senhor; dirigiu-se ao consultório do médico. Lá chegando disse-lhe:

_ Dr. Leão; tem um velho sem educação na recepção, que deseja falar com o senhor.

            O medico que já estava habituado com o povo de Itajá, pediu que a recepcionista mandasse entrar o mal educado. Não sabendo ainda de quem se tratava. Quando o Bastião adentrou o consultório, o médico também inocentemente cometeu um descuido.

_ Senhor Sebastião Luiz! O senhor está bom?

            A resposta dupla foi imediata:

- Eu mesmo; ainda bem que ocê ta veno.

_ E pra tá aqui no hospitale, já dava pro cê te uma idéia de que eu num to nada bão.

            O médico deu um sorriso um pouco amarelo e continuou:

- Mas o que te traz aqui? Perguntou ele, agora já preparado para a resposta.

- To quereno faze uma consurta; só qui eu ainda num recebi o dinheiro da aposentadoria. Se ocê pude; eu gostaria de consurtá. Depois a ora qui eu recebe a aposentadoria eu venho aqui ti pagá. Falou o velho.

-Vamos lá. Respondeu o médico passando logo a fazer a danada da consulta ao nobre paciente.

            Alguns dias depois; surge na recepção do hospital o nosso personagem; que já foi novamente afirmando à recepcionista.

- Moça quero fala com o dotor Lião!

            A recepcionista desta feita; limitou-se a se levantar e dirigir- se ao consultório do médico anunciando.

_ Dr Leão; aquele velho sem educação está ai de novo.

- Manda ele entrar. Disse-lhe o médico.

            Chegando na recepção; ela simplesmente o fez entrar.

            O personagem ao adentrar o consultório do médico, já foi logo falando.

- Lião; conforme cumbinado, eu recebi o dinhero da aposentadoria e to aqui pra ti pagá. - Quanto é? Perguntou ele, já enfiando a mão no bolso.

            O médico, usando um interfone, solicitou do encarregado de finanças do hospital, que trouxesse a conta do Sr. Sebastião Luiz. Este chegando com um caderno nas mãos; anunciou.

- Dr. Leão; o dia que ele fez a consulta era sessenta cruzeiros; mas como a gasolina subiu, hoje são setenta.

O personagem mais do que de pressa; sacou sessenta cruzeiros do bolso e o jogando em cima da mesa do médico falou.

-Ora!!! Intão eu vô pagá só sessenta; porque eu vim pagá foi o hospitale, num foi o “Posta de Gasolina”. E dando as costas saiu do consultório e se mandou.

 

 

                                                             Engenheiro Agrônomo

                                                          Sebastião de Freitas Neto

                                                              Natural de Itajá-Go



Escrito por Tião Neto às 08h08
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   A DOENÇA EXISTE?

"Uma amizade transcendental. Uma amizade que não precizou de convivencia para sabermos que queremos o melhor para nós e para os outros.

A vontade de trazer melhores dias para os irmãos em todo lugar onde estivermos.

A emanação do verdadeiro amor. Fez com que você solicitasse e eu escrevesse isso".

 

 

Sei que a maioria das pessoas se espantaria se categoricamente fosse respondida com um não. Então vou tentar justificar a origem desse fantasma que habita entre nós; a doença.

            O supremo organizador, no seu conceito de perfeição, provocou uma interação harmônica em todas as coisas existentes no universo. Os astros possuem uma lógica, jamais concebida por nós humanos. O sol emana calor em quantidades suficiente para aquecer em maior ou menor grau a superfície dos planetas e astros que compõem o seu sistema. A terra foi povoada dentro de uma perfeição inequívoca, de que foi preparada para nos receber. Todos os seres foram criados perfeitos para desempenharem uma nobre missão aqui na terra. Todos com inteligências rudimentares, que não os permite desarmonizar a perfeição do sistema. Ao homem foi dado um diferencial; a capacidade de pensar, interagir, criar, alterar, enfim o “livre arbítrio”. No lado físico o nosso corpo veio dotado de um sistema imunológico; tremendamente eficaz contra as infecções causadas pelos seres patogênicos existentes por ai, soltos na natureza, na maioria das vezes com a função de decomporem a matéria estabelecendo o ciclo da vida. A diversidade de alimentos, todos metodicamente distribuídos, e nas proporções necessárias para atender a formação desse complexo de órgãos, que foram milimetricamente calculados pelo genial criador. Quando ingerido a tempo e a hora cria-se a perfeição da saúde. A necessidade de diversificar a alimentação e o fenômeno da procriação, promoveu no ser humano a atividade do deslocamento e do trabalho, isso gera mais uma perfeição do sistema, criando o consumo das sobras de alimentos energéticos. O criador só fez alimentos bons, logicamente criou alguns para complementar com outros o ciclo da nossa existência. Até nesse aspecto ele foi sábio e generoso, pois também nos deixou as sensações de amargo, doce, acido, enfim; estabelecer diferenças entre o que foi preparando para nós ou para a cadeia de seres da natureza. O livro maximo dos ocidentais traz uma serie de recomendações, tais como “crescei e multiplicai, mas como homens”, “e o homem dominara a terra e os animais”. Isso são manifestações de que o homem, veio aqui com o firme propósito de pensar a sua existência, fazer a diferença entre ele e os outros seres.

            Recebendo o paraíso como moradia, e tendo tudo de perfeito, o ser pensante que éramos para ser, caiu no descuido, começou a desrespeitar a natureza como um todo, desrespeitando também a sua própria natureza.

            A ficção de Adão e Eva nos é passada, para salientar, que fomos criados para respeitar essa infalível lei. Assim que cometeram o pecado da desobediência, passaram a conhecer a dor e o sofrimento. Isso é ruim? Não. São alarmes para que nós seres pensantes, entendamos que algo esta sendo feito em desarmonia. Daí o alerta “observai a natureza e dela tirarás grande proveito”.

            Os organismos são dotados de vários alarmes, e de uma capacidade de se adaptarem a condições impressionantes de mudanças, bastando que para isso seja dado o tempo necessário para que ele reconheça essas alterações. Pois afinal o frio não chega repentinamente, assim como chega dentro da geladeira. O homem foi criado para desenvolver uma velocidade máxima de vinte quilômetros por hora. Hoje anda de boing, por volta dos mil quilômetros. Tempo suficiente para em poucos segundos, sair de um local frio e chegar em um extremamente quente.

            Até aqui, acredito me fazer entender a perfeição dos seres, bem como a perfeição do homem no seu aspecto animal. A diferença, portanto está no seu aspecto mental emocional.

            No afã de dominar os territórios com abundantes recursos da natureza, tais como água, alimento, abrigo, o ser pensante começou a estabelecer ardis. Como relata o filosofo Descarte; “no inicio o homem era lobo, depois se tornou lobo do próprio homem”. Reunia-se para proteger-se, depois começou a sacrificar o outro para a sua própria sobrevivência. Deixou de pensar no coletivo e passou a pensar no singular. Criou o egoísmo, e tornou-se infeliz, pois a proteção desses valores nunca é total. Dessa necessidade de defender os seus valores, vieram a ignorância do não pensar coletivo, o fechamento para a divisão, a violência opressora dos mais fracos e a maquinação mental do mais fraco para derrubar o mais vigoroso. A insônia para proteger os bens, a preocupação filha dessa mesma necessidade. A gula veio para aqueles que ao invés de cultivar, ou proteger os campos gratuitos de produção, pensa em devorar tudo que podem, com o medo de que amanhã não tenham. O apego a essas atitudes, vem as transferindo de gerações para geração. Criando a necessidade de serem fortes, nem que para isso tenham que recorrer a substancias (drogas) que lhes dão vigor, coíbem o sono. Ou mesmo a capacidade de maquinar objetos causadores de destruição. O preparo intelectual, centrado em produzir, proteger, ganhar mais; no final gera sempre o descontentamento de ver outro se sobrepujando. O pensamento retilíneo de ser reconhecido por seus feitos, quando não atendidos, gera a tal frustração. A loucura do ter gera o desconforto do ser. Nessas condições somos uma porta aberta para o desgaste. Passamos a perder os tecidos protetores, a capacidade pensante diminui. E a sensação de estar fora dos padrões impostos pela sociedade, nos leva a sermos cadáveres ambulantes. Deixamos faltar ou damos em excesso alimentos que são essenciais à beleza do ser. Quem não sabe o que quer, quer qualquer coisa.

            Com tudo isso acredito ter me feito entender; de que é preciso responder a quatro perguntas:

- Quem sou?

- De onde vim?

- Para onde vou?

- O que vim fazer aqui?

Essas questões nos colocariam certamente na condição de dizer; que se nos conhecermos como animais racionais, saberemos realizar tudo aquilo que mais nos aproximaria dos propósitos do criador. A perfeição. Se deus é santo, deixemos de ser doentes e passemos a manifestar a imagem e semelhança de deus. Afinal quem é mais saudável o homem selvagem ou nós os ditos da civilização?

            Saúde...

 

 

                                                                        De Tião Neto p/

                                                                            Ivanilda

 



Escrito por Tião Neto às 10h02
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   O PAPO DO FRANGO

 

Quem na região de Itajá não conhece a famosa Lagoa Santa. Cidade hidrotermal, Lagoa Santa esta localizada no extremo sudoeste goiano, na margem esquerda do rio Aporé; vizinha do estado do Mato Grosso do Sul. Com uma lagoa de águas quentes; mais ou menos 33 graus e brigando com Rio Quente para ser a maior vazão hidrotermal do mundo, a cidade vive praticamente do turismo.

            Ao ser iniciado, o pequeno povoado recebeu a proteção de Nossa Senhora Aparecida. Fato que nos dias que se avizinham a 12 de outubro; é comemorado com festa; festa que tem como ponto forte os leilões de prendas, na maioria comestíveis.

É quase uma festa de São João; tem quermesse e tem novena, tem pipoca e muito quentão.

             Da nova geração dos moradores da região o amigo Antonhanta; foi passar uns dias na casa do estão cunhado e futuro compadre Clarito. A chegada entusiasmada; era porque coincidia com a festa de Nossa Senhora e na festa, teria muita bebida e comida de graça; era lógico; pois o companheiro desempregado, rolava na dureza.

            Enquanto estava por lá; pra disfarçar um pouco o amigo ajudava o compadre no armazém de secos e molhados; que ficava na boca da ponte. Vendia; comprava, pescava, tomava banho nas termas e ainda tentava arranjar umas namoradas; pois naqueles dias especiais, ficava cheio de turistas.

            Chegado numa birita; o amigo Antonhanta, começou a amassar umas latas ainda na parte da manhã; com o objetivo de se aquecer para a festa que iria acontecer na noite.

             O sol já começava a se despedir, quando o já embriagado amigo; com suas longas madeixas negras, bastante volumosas, se encaminhou para a lagoa; com o intuito de tomar um delicioso banho de águas termais. Maravilha. São com certezas as águas mais lindas, limpas e reconfortantes que eu conheço.

            Banhado, ele retornou ao bar do Clarito, que em função da festa e por ser político; também estava todo animado. Era uma oportunidade para contactar com os amigos e eleitores. A anchova andou em alta no armazém do compadre.

            Chegada a hora marcada; levantaram a tenda e se dirigiram para o salão Paroquial; na época uma construção bem simples; com meias paredes feitas de bambus.

            Considerado um verdadeiro “pé de valsas” e já chamuscado de álcool; Antonhanta, se sentia o galã da festa. Dançava de peito estufado; que nem galo índio em terreiro de garnisé.

            O compadre Clarito; ostentando a função de vereador e pessoa formadora de opinião na cidade; arrematava pra dar e vender e tudo era regado a muita bebida.

            Lá pelas tantas; logicamente depois de umas duzentas o garboso bailarino caiu a crista e se acomodou em cima da mesa pra tirar um cochilo. Coisas de bêbado; sabem como é!

            Quando o leilão já tinha encerrado; quase todos já haviam ido embora. Restava somente a soca de bêbados e os forrozeiros.

            A sanfoninha, pé-de-bode, chorava um tanto entristecida pelo final da festa, bem como; pela embriaguez do tocador. Mas o som foi suficiente para acordar o companheiro; agora; um pouco refeito da embriaguez.

            Sabem como é; quando se toma umas carraspanas meio avultadas; quando o camarada acorda, demora pra sintonizar onde ele esta. Também é costume acordar varado de fome. Não foi diferente com o nosso querido amigão.

            Um detalhe; os frangos colocados nos leilões, são recheados e para não cair o recheio, são costurados; no papo e na parte do abdômen. Uma trabalheira danada tem o pessoal que ajuda a preparar aquelas gostosuras.

            Com um apetite de leão; pois em função de passar quase todo dia bebendo, o recém acordado companheiro, já quis logo um frango. Mas como a noite tinha sido daquelas de arrancar pica-pau do oco; só tinha sobrado os recheios numa bandeja.

- Já que não tem tu, vai tu mesmo. Falou o companheiro com a voz pastosa; mandando para dentro um bocado das sobras do frango.

            Aconteceu que no meio da deliciosa farofa tinha um pedaço do couro do papo do penoso; bem aonde tinha sido feita a costura. A anestesia do álcool permitiu que o celebre, amigo engolisse a farofa com cordão e tudo; mais ainda; o cordão em varias voltas tinha feito um novelo com uma ponta comprida, solta. Engolida a parte do novelo; a ponta ficou para fora, sendo arrastado pelo bolo alimentar. Gastura terrível sentiu o companheiro.

             A primeira iniciativa foi de engolir a parte que tinha ficado de fora. Insucesso, pois a engolida do resto do cordão não era tarefa fácil. A segunda tentativa foi de puxar o cordão; fato que também foi duramente rejeitado pelo estomago e pela garganta. Um copo de cerveja poderia ser a solução pensou o já fadigado cidadão. Mas o precioso liquido, não conseguia arrastar o incomodo cordão.

            Pensamento a parte; a situação não permitia, precisava agir. Aí veio a poderosa ação de arrastar rapidamente o cordão e o seu conteúdo; que ora, já estava bem alojado no estomago.

             Dando umas voltas da ponta do cordão no dedo indicador, deu uma firmada.

- A água saltou nos olhos. O novelo de cordão e couro, mexia lá no buxo. Mas o que fazer era preciso acabar com aquela inconveniente situação. Conta o infeliz.

            Puxando com veemência, a coisa veio que nem trapo na ponta de arame quando se está desentupindo uma pia. Ao passar pela garganta chegou a dar um estampido. A bandeja com as migalhas do frango, ficou repleta do que devia e do que não devia.

            Resultado. Final de festa!!!

 



Escrito por Tião Neto às 09h34
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   O COMPRADOR DE CAVALOS

 

A muito que venho querendo escrever sobre os fatos interessantes que aconteceram e ainda tem acontecido em Itajá; minha cidade natal. Não sei se tais preciosidades acontecem somente por aqui ou se é porque eu tenho os ouvidos atentos para elas, achando que aqui ocorrem mais casos que em outros lugares.

            Quero fazer o tempo necessário para redigi-las, colocando o cabedal de contos em um livro, que tenho certeza irá agradar a todo aquele que gosta de um bom causo.

            O de seu João, conhecido na região como Braganceiro. Adjetivo que era dado à pessoa que comprava e vendia cavalos, principalmente com o objetivo de leva-los para Bragança Paulista, cidade onde havia um frigorífico que abatia esse tipo de animais.

            Acontece que na região do Sudoeste Goiano, também ficou associado a esse tipo de negócio, que os animais eram sempre de péssimo estado corpóreo, ou seja, cavalo ruim; inservível para trabalho.

            Sempre no lombo de um deles, o condutor caminhava o dia todo, passando de propriedade em propriedade, às vezes levava alguns animais úteis para o trabalho, para serem trocados por animais úteis para o frigorífico.

            Por volta das três da tarde seu João, chegava nas proximidades da propriedade do seu compadre Zé. O tropel era grande; mais ou menos uns vinte animais.

            Parando na manga da fazenda do compadre Zé. Ele sempre muito solicito, já desceu do cavalo e foi encaminhando para a casa do companheiro; sendo recebido pela comadre Maria.

            Povo sem as desconfianças de hoje; a comadre já foi logo chamando o compadre João pra entrar; servindo ao amigo café fresco com biscoito de polvilho.

            Conversa vai, conversa vem e o despachado compadre já foi logo perguntando sobre o marido da comadre Maria.

            - Foi pro Jataí. Respondeu ela.

            A resposta já deixou o compadre João de cabelo arrepiado, lançando quase de imediato um bolodório mal intencionado.

            - Pois é cumade; eu tenho que ir até a fazenda do cumpade Mané; mais cumo daqui até lá, tá muito longe, acho que vou chega de noite. Caso ocê não se incomode, eu poderia ficar por aqui.

            -Incomodo não cumpade; ocê pode até fica lá no paoile. Respondeu ela.

            O matreiro seu João se encaminhou pro tal paiol, desfazendo a arreata da tropa. Mal tinha acabado de recolher o material de montaria, a comadre apareceu na porta da casa e de lá disse em voz alta, meio aos gritos, que se ele quisesse, poderia usar o banheiro que ficava ao lado da casa. Tal convite lhe aguçou mais ainda os sentidos de macho, antevendo a oportunidade de fornicar a mulher do companheiro. Digo; que até mesmo chegou a pensar que aquele convite já era uma abertura para o sonhado intento.

            Tomado o banho e de volta para o paiol, ele maquinava como iria entrar no difícil assunto da fornicação.

             Ainda mergulhado em pensamentos; ouviu os gritos da comadre lhe chamando para o jantar. Mais que depressa correu para a casa.

            Pedindo desculpa por estar servindo sopa; a comadre entrou no assunto da compra e venda dos eqüídeos e ele sempre antevendo oportunidades, ficou todo falante. Foi quando achando uma desculpa falou:

            - É cumade, ta muito bão, mais naquele paiole tem muita purga, será que não tem oto luga pra eu fica não?

            - Vô da um jeito cumpade. Respondeu ela.

            Depois do jantar ele se encaminhou novamente para o paiol. Já se fazia quase noite, quando ela o chamou novamente até a casa. Às carreiras ele atendeu, ficando muito decepcionado quando encontrou a comadre com uma lata de Neocide na mão. Afinal não era pulgas o problema do compadre João; era “coceira da braba”.

            Ajeitou as tralhas de dormir e logo que escureceu se levantou e foi até a casa, chamando pela comadre. Quando esta apareceu ele soltou logo o verbo.

- Hô! Cumade. Lá naquele paiole ta um frio danado; num tem um luga aí dento pra mim não?

- Vô vê! Respondeu ela.

            Parado na frente da casa ele ficou esperando ansioso, certamente achando que o intento seria conseguido. De repente aparece a comadre com um bolo de cobertas, entregando-as a ele.

            Enfurecido saiu pras banda do paiol, querendo até desistir da pretensão. Mas macho que é macho não desiste nunca e após alguns minutos se levantou e novamente

dirigiu-se à casa chamando. Quando esta apareceu ele foi logo dizendo:

- Hó cumade; eu já vô dize é na lata, num é purga, num é frio, num é nada; ocê ta sozinha aí. Será que num tem jeito deu  durmi aí na sua casa mais ocê?

-Uai!  Cumpade; cê espera o Zé chegá;  que nois pregunta pra ele se pode. Respondeu ela.

            Vendo a coisa feia pro lado dele desistiu; indo para o paiol.

            Acontecimento não esperado pelo compadre João; era que o compadre Zé, chegasse durante a noite.

            De madrugada a comadre Maria chamou-o novamente; desta feita para tomar café. Todo liberado para lá se encaminhou; pensando que às vezes a comadre havia se arrependido. Quando levou a xícara de café quente nos lábios o compadre Zé surgiu na cozinha; fazendo com que ele quase se queimasse de susto ao dizer:

- Bão cumpade João?

- Bão!Respondeu ele todo desajeitado com a surpresa.

            Surpreso mesmo ele ficou foi quando a comadre Maria foi entreverando no assunto dos dois; dizendo:

- Hô Zé! cê num sabe da mió?

- O qui é muié? Indagou ele.

- O cumpade feiz uma proposta pra mim onti; qui eu fiquei das mais interessada. Só qui eu falei qui ia fala cocê primero.

            Os olhos do “marvado” quase saíram para fora das órbitas, achando que a honesta comadre perguntaria ao marido se podia realizar o intento pretendido por ele. Atônito ouviu o compadre indagar da mulher:

- Que proposta ele feiz muié?

- Sabe aquela égua veia pioienta qui ocê tem? O cumpade falo qui dava quinhentos... conto nela. Disse ela com cara de esperteza.

            Chocado com o anuncio da comadre e um tanto aliviado pelo fato dela não ter relatado o intento; ele disse sem titubear:

- Dava não!!! Dou!!! Dou e é a Vista!!!

 

                                                                          Sebastião de Freitas Neto (Tião Neto)

                                                                                   Engenheiro Agrônomo

Nota do Autor: Conto já publicado em "O POPULAR", suplemento do campo(um dedo de prosa )

 



Escrito por Tião Neto às 19h41
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   ACIDENTE DE CAMPANHA

 

Ainda bem que hoje em dia a justiça tem feito muito para impedir os maus políticos de tentar aliciar o eleitor. Não vai muito longe o tempo em que se fazia de tudo para conquistar o voto; de comícios em ranchões improvisados com folhas de bacuri, aqui em Goiás uma palmeira, a shows- bailes, fretes, doação de botinas, galinhas, bananas, bebidas e até mesmo dinheiro era distribuído com a tal intenção.

            Nesta época a pequena cidade de Lagoa Santa ainda era distrito do município de Itajá, como era de praxe, algumas pessoas do povoado se propunham a serem candidatos a vereador, com o bordão de serem representantes da localidade. Tempos bastante difíceis em termos de transportes e comunicação, além das diversões da população serem poucas, não tendo nem energia elétrica para favorecer nesse aspecto.

            Aproximavam-se as eleições municipais e o Sr. Almiro, na época jovem morador da Lagoa, filho de fundadores do povoado se preparava para candidatar a vereador. Ativo, ficou sabendo que na sede do município ( Itajá) haveria um bailão daqueles, e que teria até um conjunto vindo de longe e especialista em tocar forró goiano. O primeiro pensamento do jovem candidato foi de fazer uma média com o eleitorado.

            Dono de uma caminhonete da ora, motor v8, super potente, saiu no povoado fazendo uma propaganda, do baile e do frete grátis patrocinado por ele.

            Foram convidados, entre outros o Gercino famoso pé de valsa e conhecido como Pepino da Guaiaca, a negra Eudoxia, popularmente conhecida de Dorsa, e a Cicília ou Cicila, uma negrinha miúda e magrinha; que gostava de dançar como ninguém.

            Feito os convites, marcaram para nove da noite a saída, em frente a casa do Almirão. No horário estabelecido, lá estavam umas quinze pessoas, incluindo os anteriormente citados. Os molejos da 350 quase não se agüentavam com o peso e a empolgação do eleitorado. Para quebrar o galho, já tinha rolado muita bebida entre os passageiros e o motorista.

            Dada a largada, o motorista demonstrando habilidades, sangrou a bichona, que saí espalhando cascalho; com a cara empinada. Em cima era grito e cantoria alusivas à candidatura do vereador.

            “Estrada é igual mulher”, diz o ditado; quanto mais curva e mais boa, mais perigosa. Só o motorista não se lembrou disso. Chegou a botina.

            Na metade do caminho, a todo vapor, a caminhonetona resolveu deitar. Foi gente para todo lado. Feliz sorte que não morreu ninguém.

            Logo após a capotagem, um silencio de velório, a noite de lua cheia encoberta, apresentava um negrume tenebroso. Somente o canto dos grilos e dos curiangos cortavam a imensidão.

            Preso entre a carroceria e o chão estava o Pepino. Algumas gotas de gasolina pingavam na sua cabeça, quando ele recobrou os sentidos. Medo nem se fala.

- Me tira daqui gente. To com um sufoco no peito. Falou ele em tom desesperado.

            Após umas três chamadas sem resposta, ele viu que alguém se aproximava causando relâmpagos com um isqueiro. Gritou ainda mais desesperado.

- Ou!!! Apaga esse isqueiro e me tira daqui, to com um sufoco no peito, num tem jeito de sair, a gasolina vai pegar fogo.

            Era a Dorsa, que após o alerta de fogo, sem poder ligar o isqueiro, no escuro pisou na cabeça do Pepino.

- Aqui já tem um morto. Falou ela.

            O pobre Pepino, com muito medo, inquiriu.

- Será que eu já to morto?

            A mulher meio atônita nem percebeu que o que ela achava estar morto, estava falando.

             Nesse ínterim, vem alguém tateando o chão e resmungando. Pelo resmungado o amigo em desespero reconheceu. Era a Cicila. Esperando ser socorrido ele falou.

- Cicila me tira daqui, to com um sufoco no peito, ta caindo gasolina na minha cabeça.

            A personagem com seu vestido curto, pernas finas, nariz de fanho e voz grossa nasalada, respondeu em tom de contrariedade.

- Eco!!! Num quero nem sabe. Quero é meu chinelo pra ir pra festa.

Nota do Autor

Este conto já foi publicado em "O POPULAR", suplemento do campo(um dedo de prosa) 05/10/2012.

 



Escrito por Tião Neto às 19h22
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   A VIAGEM À LUA

 

 

            Uma das atividades mais saudáveis existentes no meu conceito é pescaria. Hoje até vejo como uma terapia, ou melhor, um conceito de vida. Aquele que pratica essa atividade com certeza já pode observar, que, ela proporciona alem de alimento protéico saudável, terapia ocupacional. Na hora em que se esta pescando há uma interação mental entre pescador e peixe. O pescador se sente verdadeiramente a isca, se tele transportando para dentro da água. O exercício da paciência também é coisa digna de ser lembrada aos humanos da escravidão do tempo. E para quem pensa que pescaria é só leveza, pensa nos exercício: transportar canoas, motores, frízeres, arrancar minhocas, remar, empurrar veículos nas viagens. Ou e o jejum; fica-se quase o dia inteiro sem comer. Há tem uma coisa ruim, fica-se muito tempo com sede em cima da água, isso não é legal. E o contato com a natureza, plantas, animais, enfim; os olhos agradecem.

E o relacionamento social existente nas pescarias, é fantástico a interação com a gente que mora meio isolada nas proximidades dos rios. São estórias, causos e outros valores que muitas vezes nem sonhamos.

            Esse é o caso da pescaria do meu amigo Dr. Odélio Borges, médico, nascido e criado no interior, sempre foi adepto da pescaria. Acredito que elas o ajudaram muito a enfrentar os seus mais de quarenta anos de profissão.

            Como os rios da nossa região, sofreram duras agressões no início da década de 70, com a agricultura de precisão e o desmatamento desordenado, para implantação da pecuária. A pratica da pesca passou a ser feita em outros estados, principalmente no Mato Grosso do Sul.

            O rio Taquari, lançador de suas águas no pantanal, antes de sofrer os danos ambientais, foi um dos mais procurados pelos pescadores do Brasil. De águas rápidas e carregadas de nutrientes ele era cheio de peixes nobres como; dourados, pintados, pacus, piraputangas, piaus.

            Muita gente da região de Itajá migrou para as margens do Rio Taquari, criando com os que aqui ficaram, uma oportunidade para se encontrarem nas pescarias. Alguns pontos se tornaram famosos, tais como; o pesqueiro do Shon ou Xon, nada a ver com chinês.

             Foi na fazenda do Shon, que o Dr. Odélio e seus amigos estavam acampados, quando lá apareceu o Sr. Davizinho, um pequeno sitiante das proximidades. Como era e ainda é de costume dos moradores das margens dos rios, ao chegar alguma caravana de pescadores, eles, sempre solícitos aparecem; primeiro para contatarem com os da cidade, segundo que além da prosa tem uma birita. Para não ficarem devendo, o caboclo não gosta de ser oneroso para com os outros, eles sempre ajudam a limpar peixes, transportar coisas, levar nos pontos bons de pesca, pilotar canoas. Chegam as vezes a ficar por semanas ali por volta dos acampamentos.

            Preferencialmente as pescarias são programadas para a temporada de lua cheia, e a pescaria em apreço não foi diferente. Após um dia e início de noite cansativos, os pescadores e Seu Davizinho estavam no barraco, tomando umas e preparando o jantar, quando começou a irromper a lua cheia, lá pelas nove da noite. No inicio o assunto era sobre a beleza do luar do sertão. Conversa vem conversa vai, e da beleza do luar passou-se a falar sobre a ida do homem até a lá. Conversa esta que não agradou sobremaneira ao Seu Davizinho.

            Contestando veementemente a tal viagem. Seu Davizinho dizia que o homem não dava conta de jeito algum de fazer essa viagem. Justificando dizia ser impossível , pois além de muito longe, o avião, nas palavras dele, tinha que subir a pino, e isso era muito para uma maquina fazer. Dadas as explicações pelos mais informados, de que a viagem era feita em foguetes. Ele mesmo assim continuou a contestar, dizendo que não acreditava. Muita prosa e graça no assunto ele acabou por aceitar que poderiam até fazer um foguete que viajasse muito longe, mas que ao invés de irem à lua eles tinham decido em algum lugar ermo da terra , tirando fotografias para enganar os trochas.

            Muita saliva e risadas foram gastas pelos presentes, tentando convencer o nobre capiau a acreditar na difícil viagem. Quando este ao perceber que a luta já estava em seu desfavor arrancou uma do fundo do baú, finalizando a contenda de uma forma incontestável:

- Oh!!! Até que o home pode te feito mesmo essa viagem, ter ido lá perto da lua, tirado fotografia da lua, mas desce lá eu num acredito de jeito nenhum.

- Ah!!! Mas por que Seu Davizinho? Perguntaram em uníssono os pescadores.

- Eu quero ver é o São Jorge e o Dragão deixa eles aterrissarem lá. Num deixa de jeito nenhum...

 



Escrito por Tião Neto às 19h09
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   CAFÉ DE INDIO

Nascido em Itajá, aqui me criei até os onze anos, quando as escolas desta época; o Grupo Escolar Dona Batista e o Colégio Estadual Presidente Castelo Branco se tornaram, na mente dos meus genitores, insuficientes para organizar os meus vôos, que na concepção deles seriam altos.

            Após o curso de admissão, um mini vestibular que atestava capacidade para passar do Curso Primário para o Colegial, fui para Monte Aprazível, no estado de São Paulo. Após as três primeiras séries do Ginásio, o Ginásio Dom Bosco, encerrou suas atividades no ensino básico e eu me dirigi até Uberaba, onde terminei o ensino fundamental e fiz as duas primeiras séries do ensino médio. Daí para Goiânia, completando o segundo grau e finalizando o ensino superior na Faculdade de Agronomia do Maranhão. Tendo sido o primeiro goiano naquela faculdade. Onde conheci a colega de classe e depois mãe dos meus dois filhos; Luisa.

            Louco por pescaria, consegui; por apenas uma vez levar a companheira de 25 anos de convivência, porém ficou na lembrança, acontecendo uma série de episódios, que eu acho contribuíram para que ela não tornasse em outra.

            O destino era a Fazenda Pateiro no município de Canarana no Estado do Mato Grosso, mais precisamente no rio Coluene.

            Em duas caminhonetes estávamos em quatro casais e mais o meu tio Amós, pirangueiro, velho conhecedor da região.

            Em função do numero de pessoas, dividimos a turma; o Dori a Fátima o Velho Cubas a Dona Vena e a Clayde, foram na cominhonete do Dori; eu a Luisa o Célio e o Kimós em um F 4000. A distancia a ser percorrida, mais de mil quilômetros, que até Água Boa, foi tudo uma beleza. Depois de Água Boa, já no principiar da noite, a caminhonete do Dori passou adiante; não deixando eles perceberem que o nosso veiculo, tinha quebrado a hélice do radiador, nos impossibilitando de seguir viagem.  Como estava próximo o ponto de parada, nos não nos preocupamos, achando que, na pior das hipóteses, quando eles parassem, voltariam para dar socorro. Ledo engano; eles acharam que nós tínhamos errado de ponto e se organizaram para pernoitar, nos deixando dormir na beira da estrada.

            Pensem numa situação difícil; dormir na cabine de uma caminhonete em três e ainda “pra acabar com os pequis do Goiás”, dando um chuvisqueiro. Aquela foi uma das mais longas noites que eu já passei. Depois de escurecer a quantidade de pernilongos era impressionante. Cheguei a pensar que nunca mais pescaria. Agora imaginem quem estava indo pela primeira vez e sem gostar.

            Ao clarear do dia, com o corpo todo amassado, com a cabeça inchada por não conseguir dormir, descemos da caminhonete e já nos dispusemos a verificar o que tinha acontecido. Detectando que tinha furado o radiador, nos dispusemos a retirá-lo, esperando que quando o socorro dos companheiros chegasse, teríamos economizado tempo. Enquanto retirávamos o radiador, o meu tio de ouvidos atentos, anunciou que havia moradores na região. Fazendo logo o convite à Luisa.

_ Tem um morador ali Luisa. Vamos até lá pedir um café pra fazer uma boca de pito? Indagou ele.

            Com a afirmativa dela, os dois saíram em direção ao barulho do morador.

            Com a cabeça dentro do capô da caminhonete, fiquei surpreso ao ouvir o barulho do caminhar apressado no pedrisco da beira do asfalto; já era a Luisa com cara de espantada e andar apressado, voltando do café boca de pito. Notei logo que havia acontecido alguma coisa estranha, principalmente porque o companheiro de arranjar o café tinha ficado. Já fui logo indagando:

- O que foi que aconteceu? Cadê o Kimós?

             O pavor era visível, quase não deixando sair a voz; respondeu.

_ Ficou pra traz. Lá é a casa de um índio. Falou ela em seguida.

_ Bebeu o café? Indaguei.

_ Tive que beber né? Respondeu ela.

_ Mas porque? Perguntei.

_ Era um índio velho e sujo, numa casa suja, cheia cachorros, macaco e arara. O café foi feito numa lata das mais sujas. Acho até que ele nunca lavou a lata, chegava a estar preta de sebo de café e terra. Ele põe a água com o café na lata e enfia um tissão de fogo em brasa dentro, espera um instante e põe em outro copo, de extrato de tomate, mais sujo ainda. A coisa tava cheia de cinzas. Quase morri de nojo. Ai o índio pegou a caneca e entregou ao seu tio; este por sua vez me passou dizendo”primeiro as damas”. Bebi, mesmo que a coisa não queria. Os goles chegavam a gargutar. Entreguei a caneca e saí correndo. Narrou ela.

_ Uai! Mas por que você bebeu? Perguntei.

_ Fiquei com medo do índio...Pensei que ele poderia achar ruim e fizesse alguma coisa comigo. Falou ainda um tanto angustiada.

_ Vai! Também é uma loucura pra fazer boca de pito! Pensei.



Escrito por Tião Neto às 11h04
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   COISA DO DIABO

 

Uma das coisas que mais chamou a atenção na minha vida foi o desenvolvimento tecnológico. Como era lindo na minha infância ficar admirando o radio falando e cantando. Era simplório demais querer ver os homenzinhos que faziam proezas dentro das pilhas; seus locais de morada. Quantas e quantas eu as quebrei, tentando encontrar tais moradores.

O avião alçar vôo... Era demais! Esse foi durante muitos dias o único meio de transporte na nossa inóspita região. Fazer um campo de pouso era muito mais fácil, do que fazer uma estrada. E os caminhões; que força desempenhava aqueles “bichões”, para transportar cargas de uma e meia tonelada. Era assim que via o mundo da modernidade, um menino nascido no interior.

Fascinado por essas modernidades era o Sr. Geraldo Borges. Abastado fazendeiro, ele vivia comprando para o uso, bem como pra fazer umas graças com o pessoal que trabalhava na sua fazenda. Era livro que dava choque. Goma de mascar que deixava a boca verde, peixe elétrico. Sempre, ele que viajava de avião, trazia uma novidade. Mas nenhuma foi tão admirada, quanto um gravador ou toca fitas. Era bem daqueles que tinha a fita em dois roletes externos, muito pouco recurso para a musica, mas para a graça o danado tinha muito potencial.

O Compadre Zé, do Sr. Geraldo, era carpinteiro dos bão. Muito metódico no seu trabalho, muito sabido, de fala pensada e bastante explicada. Dizia-se até poeta; porém nunca chegou a publicar as suas poesias. De tudo que você conversasse ao redor dele ele entendia e apresentava um parecer. Católico, do mais fervoroso, estava sempre dando uma demonstração de que conhecia a palavra. Em determinadas circunstancias era um pouco zombador da ignorância dos caboclos mais despreparados da região. Fato que chamou para ele a atenção dos mais afoitos em descontar uma daquelas ofensas. Um requisito que ele não tinha era resistência para ser zombado. Se fizessem uma chacota com ele o revide era duro.

Quando o Sr. Geraldo chegou de viagem das bandas de Uberaba, trouxe com sigo o tal gravador. Logo que chegou. Ele que gastava da graça. Colocou o utensílio em cima da mesa, da grande área, que havia na sede de sua fazenda. Quando chegava uma pessoa ele de imediato acionava a tecla de gravar e puxando um assunto dos bão; fazia a gravação da voz daquela pessoa. Depois de um tempo ele acionava a tecla de play e mostrando à pessoa, dava belas risadas, principalmente do espanto que muitos ficavam quando descobriam que a voz era deles.

No domingo era costume dos agregados, termo dado àqueles que moravam e trabalhavam nas propriedades rurais sem serem donos, irem até a sede da fazenda pra bater papo, informar os acontecidos na fazenda e ficar por dentro das noticias do Brasil e do mundo. Pois era o radio o único meio de comunicação existente e também privilégio dos mais abastados, como o Sr. Geraldo. Foi aí que chegou o compadre Lora. Homem trabalhador, na lida roceira era dos melhores. Também era chegado na conversa. Tendo no Compadre Geraldo uma grande afeição.

Deram boas risadas a hora em que a tecla de play, foi acionada e lá apareceu a voz do compadre Lora. De imediato o satírico sertanejo já lembrou do compadre Zé.

- Cumpade Gerardo! Chegou a hora de zoa a cumpade Zé. Ele já ta sabeno dessa nuvidade? Inquiriu ele.

-Não. Respondeu o Sr. Geraldo.

- Então pode prepará que daqui um poquim ele ta aqui. Disse o Lora todo feliz com a possibilidade de zoar o desafeto.

Liquido e certo. Mal acabaram de falar e o Sr. Zé irrompeu no pátio da fazenda. Apresentando um ar dissimulado o Lora continuou a conversa. Fato que deixou o compadre Zé, bastante a vontade na chegada. Após os cumprimentos, foi agarrando uma garrafa térmica de café, que já era conhecida dele, mas que também era uma novidade, e já foi logo entrando no assunto.

            Assim que se assentou à mesa, o compadre Geraldo já acionou o gravador, fato que não deixou de chamar a atenção do Sr. Zé; que era dos melhores ouvintes de radio. Ao acionar o Sr. Geraldo saiu da área, se metendo dentro da casa com a desculpa de procurar ali algum pertence.

 Dado o prazo suficiente para que a conversa fosse gravada ele retornou de dentro da casa.

            Com a saída do Sr. Geraldo, o assunto entre o Lora e o Sr. Zé, continuou. Após ter bebido o café ele, ao deixar a xícara de café na bandeja, notou a presença do estranho radio, metendo a mão no danado e notando que o mesmo estava funcionando ele empunhou o bicho e começou a desferir no compadre e patrão os seus malignos dizeres. Primeiramente comentou que o compadre não deveria comprar mais um radio, pois tinha um Semp de mesa dos melhores. Que aquele novo devia não prestar pois nem estava  falando. Chegou até a comentar.

_ Estou achando esse bicho muito estranho, com essas rodinhas rodando, nem parece que é rádio.

            O compadre Lora quase não se agüentando, tentava extrair mais maldizeres do Sr. Zé. Dizendo.

_ É eu num sei não, mais acho que isso é mesmo um radio novo.

_ Isso é desperdício, onde já se viu comprar uma porcaria dessas, que nem chegou da loja já num funciona direito.Só podia ser o Compadre Geraldo mesmo, para esbanjar tanto dinheiro assim. Capricho de rico ganancioso. Findou ele.

            Nesse momento o compadre Geraldo retornou à área e indo direto no gravador, já acionou o botão de “play” ao mesmo tempo em que perguntava ao compadre Zé, se ele teria visto a novidade que ele tinha trazido de Uberaba.

            Com a conversa do Sr. Zé e do Lora, rolando no gravador, o Sr Geraldo dissimulando espanto, foi logo perguntando:

_ Uai! Compadre Zé ocê ta falando mal de mim?

            Muito espantado com a conversa que saia do gravador, e indignado com a descoberta da maledicência que havia proferido contra o amigo. Ele saltou da área para fora agarrou um pedaço de pau que estava encostado na cerca e aos gritos falou:

_ Isso é coisa do diabo Compadre Geraldo. Isso é coisa do diabo Compadre Geraldo. Deixa eu meter o porrete nessa geringonça.  



Escrito por Tião Neto às 10h33
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